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Convite a filosofia

Por Chiara Santi



Se me pedissem para descrever o que é seguir o caminho da filosofia, eu diria para tentar imaginar um cenário de tempestade e procurar sentir tudo o que ele evoca, os raios, o cinza, o brulho do trovão, os ventos fortes, a eletricidade de uma força muito maior do que você se movendo. A filosofia é isso para mim: uma devastação. Não tem como sair impune do questionamento, da eterna busca. De oscilar entre a certeza e a dúvida como quem navega sempre perdido ansiando a todo momento por uma direção. Eu tinha quinze anos na minha primeira aula de filosofia do ensino médio, quando o professor começou a falar de modo bem introdutório o que era a Filosofia, e em algum ponto do meu coração, parecia que eu já sabia tudo sobre o que ele estava falando. Sentia meu coração acelerado de verdade, olhava para os lados na turma vendo se mais alguém estava entendendo aquilo como eu. Um pouco desapontada, vejo a turma toda com aquela típica cara de tédio. Mas não consigo me esquecer desse primeiro encontro e do quanto ele foi necessário para mim. Eu ainda não sabia, mas seria um caminho sem volta.

 

Mais tarde, no período do pré-vestibular e de me preparar para prestar ao ENEM, quando eu dizia que eu tentaria para a Filosofia, quase todas as pessoas me colocavam para baixo. Parecia que eu tinha anunciado o quadro de uma doença terminal: “Nossa, mas você tem certeza disso?” As pessoas perguntavam como se eu tivesse escolhido uma tragédia, diziam que eu passaria fome, seria professora e ganharia mal. Nada de paixão, amor e coração acelerado. O chamado que eu sentia na minha alma não era considerado por ninguém. Só meu professor de Sociologia pareceu ter ficado genuinamente feliz e orgulhoso por mim, ainda mais quando soube que consegui passar no vestibular. O sorriso dele foi muito importante, pelo menos havia alguém que não achava que eu estava cometendo um erro. É engraçado que a gente chega com toda essa idealização em nós, mas a realidade é brutal e nós não podemos deixar de nos esquecer disso. A academia de Filosofia me destroçou, podou minha criatividade, criticou minha escrita, roubou minha paixão e me jogou em um ninho de cobras egoico. Verborragia. Falar, falar, falar e absolutamente nada dizer. Mas, ainda assim, a gente supera, aprende, se fortalece. Chora muito, mas não desiste. Anseia pela potência dos bons encontros enquanto pega o diploma como se ele fosse um escudo, e diz: eu já passei por tudo isso e vocês não me assustam mais, não como antes.  Tudo isso passará, mas a descoberta e o encontro pessoal que tive com a filosofia permanecerá.


Sou uma platônica incurável, desde o início da minha graduação. E quando percebi que eu poderia escolher ler Platão pelo resto da minha vida e chamar isso de profissão, eu não tive mais dúvida nenhuma. Platão, por exemplo, instaura a filosofia aos moldes de um diálogo. Ler Platão é ser jogado diretamente par fazer filosofia através da leitura de sua obra. Lembro da primeira vez que li um diálogo platônico e de ter achado extremamente difícil “Meu Deus, eu vou ter que ler de novo. E de novo, de novo”. Até ter encontrado uma compreensão básica e partir para o próximo parágrafo. É uma maratona mental muito sofrida ler a filosofia de verdade. Você se sente um idiota no começo, mas pelo menos se revolta com isso o suficiente para deixar que as coisas não fiquem assim por muito tempo. A constância dos estudos e de permanecer no caminho da leitura são a chave do progresso na filosofia. Não desistir, mas ir se desafiando cada vez mais. Não se contentar com o mediano é aceitar a jogar o jogo no modo difícil. Lutar contra todas as trevas da ignorância. E perceber que é uma luta eterna. Em minha regência no estágio da Licenciatura dei uma aula de revisão sobre Platão e disse que o caminho da dialética platônica, que nos convida a sair do escuro da caverna, em direção de conhecer a verdade sobre a realidade das coisas do mundo, é um constante entrar e sair da caverna. A experiência, o tempo, e a maturidade nos permite enxergar com consciência o que se passa ao nosso redor, entendendo que essa jornada não tem fim, e que toda hora precisamos expandir um pouco mais a nossa percepção, nos livrando de antigas crenças e comportamentos limitantes.

 

A filosofia é um convite a saber pensar, a orientar a sua mente para despertar o mestre do seu próprio interior. Ensina-lhe a se libertar dos falsos dogmas, a desconfiar dos discursos que só são persuasivos, mas que, no fundo, eles nada dizem. Como colocar óculos de grau e enxergar a realidade com mais clareza e definição. E, de repente, perceber que passou boa parte da vida cego. “Estamos cegos, cegos que vendo, não veem”, já dizia Saramago. Ao receber o convite para escrever essa coluna, pensei no nome de um livrinho católico que tem o nome “Minutos de sabedoria” ele possui trechos curtos para uma reflexão rápida e diária. Eu queria que os meus textos por aqui fossem do mesmo jeito. Por isso o nome da coluna será “Minutos de Sophia”. Então, me desculpem desde já também por essa escrita acelerada, pela mistura de relato pessoal com conhecimento científico escrito de forma lírica. Talvez seja pomposo, mas eu gosto. Gosto de escrever um texto que me dá vontade de ler até o final. Um texto que grita e clama para ser ouvido. A obra de Platão está lá fechada, te chamando. Os diálogos te conduzem ao exercício exegético de colocar a si em questão, é o trabalho do seu intelecto confrontado pelo interrogatório sem fim das perguntas de Sócrates, nós somos os seus verdadeiros interlocutores. No teatro do pensamento ministrado por Platão, ele nos deixou uma peça valorosa, um tesouro riquíssimo para a humanidade: ele nos ensinou a pensar com a nossa própria cabeça. Ele nos convidou a sair da caverna. A dialética platônica liberta a nossa alma e ente, na medida que nos orienta a pensar e a buscar o conhecimento da forma correta. Mas o que é a dialética? Para Platão, é um método de perguntas e respostas que orienta o debate a fim de buscar a clareza sobre o tema colocado em questão. No meio desse caminho são feitos acordos amigáveis e concessões entre os interlocutores, o essencial não é chegar na resposta final, às vezes nos diálogos platônicos muitos deles terminam aporéticos, quer dizer, sem respostas. A aporia é um beco sem-saída, quer dizer que a discussão do tema foi exaurida até não ter mais solução para o assunto. Mas isso não, é algo ruim, o personagem de Platão, o Sócrates, defende que o mais importante é viver o processo da depuração dialética, as vias, as tentativas, a busca, o raciocínio sendo confrontado com o seu próprio limite, exaurindo-se.


Percebendo que ainda há muito para se saber, que o verdadeiro caminho em busca da sabedoria é se livrar das suas falsas certezas, suspender o juízo por um tempo determinado. E, depois, percorrer o caminho mais livremente. Analisando e ponderando as alternativas, vivenciando o processo dialético de coração aberto para, talvez, ser confrontado um dia com a verdade. Sócrates foi considerado o homem mais sábio pelo oráculo justamente porque ele se colocava nesse papel de eterno buscador, era alguém que se entregava ao conhecer como quem chegou no mundo agora, quase um recém-nascido, que se espanta e se maravilha na mesma medida em que é assombrado a todo momento com a possibilidade de tentar entender todas essas questões problemáticas que permeiam a passagem humana pela terra. Sócrates é uma imagem caricata do filósofo, mas gosto dela. O eterno buscador que gosta de conversar e desafiar as pessoas   com questões e perguntas difíceis, que nos faz olhar para o âmago das definições que trazemos conosco de modo tão religioso. E de muitas das vezes, destroçar todas elas bem na nossa frente e dizer: você ainda é um iniciante, acalma-se. Volta o caminho todo e recomeça, percebendo que as respostas não são o mais importante, mas o convite a uma eterna busca por essas questões que se renovam na gente a cada instante e que mobilizam a nossa existência. As perguntas tão fundamentais (e clichés até) da filosofia: de onde viemos? Quem somos? Para onde vamos? Perguntas que são bússolas norteando nosso caminho em busca de respostas até hoje. A experiência humana está ligada a uma incessante inquietação por entender e saber mais. Tenho tatuado no meu ombro esquerdo a palavra: maravilhar-se. No diálogo Teeteto, Platão diz que o princípio da filosofia, vem do grego Thaumázein quer dizer “Espanto, Admiração, Maravilhamento”. Momento em que um dado ou acontecimento no mundo nos causa algum tipo de assombro e estranhamento, como se tivéssemos entendido ou visto algo pela primeira vez. Esse contato com essa inquietação, esse incômodo com a realidade e essa vontade de querer saber mais e entender, é o chamado da filosofia. Para o pensamento vivo que nos acerta como um raio nos tirando das nossas certezas, nos deixando um pouco perdidos e confusos, até entendermos a nossa própria maneira de velejar nosso barco nesse oceano turbulento da reflexão. Esse é o convite que faço aos leitores que chegaram até aqui: você permite que o caminho da filosofia te leve para um monte de perguntas difíceis procurando respostas nada fáceis de encontrar?



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