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A era dos humanos mentalistas demais, corpóreos de menos




Por Bruno Pasquarelli


Poucas pessoas têm consciência de que estão vivendo, decidindo e percorrendo sua jornada baseada em seus paradigmas. Na maioria dos ambientes formais e informais de educação, não somos instigados a refletir se estamos criando ou reproduzindo comportamentos.

O fato é que cada pessoa segue – sabendo ou não – paradigmas que as guiam, pensamentos que as cercam e as fazem decidir e agir (interagir com o meio).

Com relação aos paradigmas, David Hume sustentava que: “leis e teorias nada mais são que hábitos psicológicos que adquirimos como resultado de repetições das observações relevantes”.

O ambiente é, portanto, a nossa maior condicionante, é o que nos faz observar o que é relevante e criar "hábitos psicológicos", como cita o historiador e filósofo inglês.

Dentro de parte do sistema educacional e parte da sociedade, há uma certa separação intelectual de quem é mais mentalista e de quem é mais corpóreo.


Eu, por exemplo, já sofri certo preconceito por 'ser do esporte' algumas vezes. Fui julgado por professores, colegas, pais de colegas (por ter escolhido fazer Educação Física e não alguma das Engenharias, ou Direito, Medicina, etc.). E é claro que isso refletiu bastante na construção da minha autoestima, autoimagem e no meu posicionamento na sociedade, sentindo-me, por um tempo, mais "burro" que os outros.

Depois de um tempo, já nos meus anos de pós-graduação, entendi lendo teorias sociais e filosofia da ciência, que isso tinha a ver com o paradigma que predominava na época. O cognitivismo.


O cognitivista nos percebe como máquinas, capazes de receber inputs e gerar determinados outputs, somos perfeitamente divisíveis e tudo é cerceado pelo topo da cadeia, conhecido como cérebro/mente, em detrimento de tudo que somos quanto ao corpo. Ou seja, o que a cabeça cria é mais importante do que o nosso corpo deseja.

Há não muito tempo, e para muitos até hoje, o cognitivismo é valorizado para distinguir inteligência entre as pessoas. Os testes de QI, por exemplo, foram desenvolvidos para classificar seres humanos em dotados, super-dotados e pouco dotados de inteligência. Isso é uma grande besteira hoje em dia. Embora, como mencionei, haja gente que ainda acredita nessa falácia enviesada.


É muito mais fácil (e preguiçoso) adotar um pensamento que divide ao invés de distinguir os indivíduos, um pensamento que desune ao invés de uni-los – como cita o teórico da Teoria da Complexidade, Edgar Morin.


O pensamento demasiado racionalista tem muita dificuldade de encarar a diversidade de saberes e a versatilidade de habilidades. Por isso, sempre fomos encorajados a pensar que os alunos com melhores notas em Matemática e Física são mais dotados de inteligência que os melhores alunos em Educação Física e Artes. Como se não houvesse na prática, a física e a matemática embutida na habilidade (percepção-interação com o jogo) de um passe para o gol passando entre os marcadores, um drible inesperado por entre as pernas, um gol de bicicleta. Entretanto, quase sempre fui considerado parte do grupo dos "burros" da sala. 


Será que alguém que está lendo esse texto agora se identifica com essa situação?

Eis que me encontro agora, quase para completar quatro décadas de vida, descobrindo a cada dia que meu corpo é muito importante, mais que isso, meu corpo sou eu. E posso cuidar melhor de mim, me conhecer melhor, aprender novas habilidades, me tornar mais inteligente, à medida que avanço no entendimento sobre o meu corpo.


A cada vez que me conscientizo, evito mais problemas de saúde, tenho menos dias perdidos por doenças e não sobrecarrego tanto minhas células, tecidos, órgãos, sistemas, meu organismo biológico como um todo, minha psique e minhas interações sociais. Sim, minhas interações sociais fazem parte de tudo isso, nosso contato com o mundo exterior fica mais confortável quando estamos bem conosco.


E nessa era mentalista, o maior desafio é o controle da mente. E a mente, é a maior responsável pela qualidade das relações, com o que faz fronteira com a nossa pele, nossos órgãos sensoriais e a nossa percepção do mundo fora de nós.

Muito melhor do que um paradigma cognitivista, podemos adotar um pensamento sistêmico-complexo-ecológico, que nos faz destruir as barreiras verticais, que dizem que a mente é mais importante que o corpo e, assim, nos fazem ser mais horizontais nas relações entre todos os seres animados ou inanimados, principalmente conosco, no cuidado com o nosso corpo.


Esse tipo de pensamento nos faz reconhecer que a educação física é uma parte importantíssima da medicina, da sociologia, da biologia… e assim por diante. O resultado disso é que nos tornamos pessoas mais heterocentradas (que respeita a variedade e a mistura), compassivas e sabendo ser parte do ambiente.


O movimento é a parte fundamental que precisamos retomar. É muito difícil hoje conceber o corpo em movimento com regras e fundamentos que estejam universalizados como a teoria cognitivista, já que a tendência é estarmos mais focados em tarefas mentalistas e quase nada corpóreas, como rolar o feed das redes sociais, por exemplo.


Sendo assim, ser educado fisicamente é sinal de progressividade. “O corpo é a estrada que a mente percorre” - como diz o neurocientista António Damásio. Sem cuidar do corpo, nossa mente fica sem “chão”. Por isso a importância de associar o paradigma à educação das pessoas e da possível transformação da sociedade para uma vida com mais movimento corporal, reconhecendo que esta é uma parte inteligente do ser humano que precisa ser preservada e estimulada em todas as etapas da vida.


E nós, àqueles com super cérebros, vivendo nesta era mentalista, não seremos muito mais do que pessoas debilitadas, com corpos debilitados pelo habitus, por aquilo que fizemos com o corpo, se não religarmos o corpo com a mente e encararmos essa relação de interdependência.


Todo dia pode ser uma batalha para cuidar de si, cada dia em movimento é um dia mais próximo de se conhecer. Ou cada dia pode ser um dia de se afastar de si, enquanto continua se aproximando do que há fora, no mundo através das telas, principalmente.

Qual ciclo você quer estar habituado a fazer?


Para finalizar, resgatei um poema que escrevi em 2018, enquanto pensava sobre algo parecido com o tema desta coluna. Reflita junto comigo:


Todo dia esse ciclo se repete!

E a gente para, para acompanhar?

Temos tempo para ver a vida passar?

Ou passamos fazendo planos do amanhã?

Ou tentando esquecer o que já foi?

.

Encaramos o acordar como renascimento?

Ou levamos a mente para qualquer lugar,

deixando a matéria viva para depois?

.

Descobrimos um pouco do mundo interior – com amor,

todos os dias?

Ou esquecemos do corpo, todos os dias,

não deixando emoção nenhuma se impor?

.

A gente respira profundo e consciente.

– sei lá – umas vinte vezes pelo menos?

Ou engolimos sem parar, sem pensar:

a água, o ar, o alimento que vira fogo por dentro?

.

Esse ciclo se repete, minha gente, todo dia.

Estamos presos na mente?

Soltos no tempo?

Dentro do corpo?

Ou só desatentos?


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