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A nossa ciranda



Por Luciane Monteiro


“Vamos beber o que estávamos reservando para uma ocasião especial. Sem dúvida, uma ocasião especial é qualquer ocasião à qual a alma esteja presente.”

(Clarissa Pinkola Estés)


Hoje vou me dirigir mais às mulheres para discorrer sobre um pequeno grande livro. Digo pequeno porque é realmente curto, e grande porque traz muito conteúdo. Não excluo os homens deste artigo, porém essa leitura é quase uma “conversa de comadres”, como diz a autora. A narrativa me instigou a falar sobre pequenas ações para alimentar o espírito com sentimentos positivos. Uma das formas de fazer isso é evitar pessoas tóxicas e aproximar-se de outras mulheres com quem possamos aprender e crescer, sejam amigas, familiares, terapeutas, artistas. Enfim, alguém com quem tenhamos alguma afinidade. 


Dessa vez, alimentei minha alma com a sabedoria da Clarissa Pinkola Estés, por meio do livro “A ciranda das mulheres sábias". Então, como as coisas boas merecem ser compartilhadas, resolvi escrever sobre o assunto.


“Saiba que você é abençoada, apesar das hesitações, quedas, tempo perdido, certezas, perspicácias e mistificações…”


Nesta obra, como mencionei antes, você se sente convidada a uma conversa de “comadres” para ouvir histórias de força e coragem. E “comadre”, no livro, segundo notas da autora, significa algo como “eu sou sua mãe e ao mesmo tempo você é minha mãe”. Ou seja, é o cuidado entre amigas verdadeiras. Isso me levou a uma constatação formidável: tenho comadres! Você deve ter também, são as companheiras sempre prontas a ouvir, dar conselhos (e broncas). Sim, porque quem nos ama de verdade chama a atenção, quando necessário, como uma mãe. E, seguindo essa mesma lógica, você também ouve, cuida e ajuda a sua amiga, pois mulheres sábias visam o crescimento mútuo e o fortalecimento do laço entre elas. Assim, se você tem uma, duas ou mais “comadres”, o importante é estarem em contato. 


“Se você não incomoda os amigos para desabafar quando precisa, qual é o sentido da palavra amigo?” Essa frase eu ouvi na primeira vez que fiz terapia, após demorar cerca de três meses para realmente falar sobre mim, pois não costumava me abrir com ninguém. Percebi, então, como eu estava desperdiçando a oportunidade de ouvir e ser ouvida. Considerando, portanto, a possibilidade de ter para quem correr nos momentos difíceis, por que não acumular mais momentos agradáveis?


Compreendo o desafio de encontrar um tempo para nós hoje em dia. Contudo,  sendo os desafios fortalecedores, eu te convido a separar algumas horas para estar com mulheres incríveis como você. Quer sugestões? A lista abaixo traz quatro dicas, mas você pode acrescentar outras: 


  • Quem não ama café? Também pode ser um chá, é claro, mas numa cafeteria diferente, com direito a sair da dieta! Ou mesmo uma tarde com as amigas na sua casa;


  • Happy hour de mulheres: se você é mais festeira, vale a pena ir para um barzinho, um karaokê ou uma balada a fim de rir bastante e tirar fotos para recordar depois;


  • Bazar entre amigas: vocês trazem roupas e objetos não mais usados e o que não for trocado vai para doação. Vale também disputar o mesmo item com brincadeiras ou sorteios. No final, vocês se divertem, tomam um café juntas e ainda ajudam outras pessoas.


  • Caminhadas: pode ser na quadra, no parque ou na rua perto de casa. Além de aproveitarem para colocar a conversa em dia, vocês estarão cuidando da saúde. 


Agora não tem desculpa, vamos trocar figurinhas com as amigas e permitir-se recarregar as energias. Outro detalhe pertinente: quando falamos de figuras femininas que se fortalecem, podemos incluir a mãe, a terapeuta, a professora de arte, de dança, de ginástica. Para esse artigo, por exemplo, inspirei-me em uma escritora, mas também me inspiro em mulheres comuns, o importante é buscar a troca e cuidado mútuos.  


E, assim como é importante cultivar as boas amizades, é crucial evitar amizades tóxicas, pois essas apenas nos puxam para baixo em vez de acrescentar em nossa vida. 


“Portanto que sempre consigamos resistir a quaisquer falsidades coletivas que procurem anular a visão e a audição da alma”


Já falei sobre isso em outro artigo: a importância de reconhecer o predador da psique. Esse predador pode ser nós mesmas, quando desacreditamos nosso potencial, mas pode ser, ainda, alguém que nos coloca para baixo com palavras ou atitudes. Além disso, o mau humor alheio também contamina e suga nossas energias. Então, se o mal-humorado ou a mal-humorada não quiser ajuda para ficar melhor com a vida, pelo bem da nossa saúde mental… 


“Que nos afastemos dos zombeteiros que não ouvem esse chamado para a vida da alma. Assim, a mulher sábia avança por seu caminho.”


Você não é obrigada a carregar a tristeza e amargura de ninguém, e precisa saber até onde deve ir para não adoecer por suportar agruras alheias. Algumas pessoas não querem ouvir o chamado para a vida, e há um limite para você sacrificar a sua. Portanto, observe até onde é saudável você tolerar inconstâncias se essas te atingem de forma negativa. 


Ademais, não se inquiete caso se incomodem quando você começar a evitar o que lhe faz mal e, concomitantemente, arrumar mais tempo para si e para o cultivo de momentos positivos. Isso é essencial, e é preferível a trabalhar freneticamente para enriquecer o chefe ou se fatigar numa jornada dupla para deixar a casa impecável. Coisas pequenas não merecem nosso desgaste:


“O que é mais provável é que no portal do paraíso queiram saber com que intensidade escolhemos viver; não por quantas ‘ninharias de grande importância' deixamos dominar.”


Fique tranquila, se você soltar um pouco as rédeas e se voltar ao seu universo particular cuidando mais de si, seus filhos vão sobreviver, bem como seu companheiro ou companheira, seus pais e seu chefe. Assim, você terá tempo de rever o caminho percorrido em vez de atropelar o percurso numa corrida insana para chegar nem se sabe onde. 


Pare para ouvir pessoas, inspirar-se em histórias. Contudo, sabe qual pode ser ainda mais inspiradora? A sua. Quando você começar a colocar seus acertos acima dos erros, perceberá o quanto pode inspirar os outros, além de aprender com seus equívocos, ajustando, assim, os próximos passos. Quando se der o tempo merecido, você voltará renovada para os que te cercam. Só somos capazes de compartilhar felicidade se cuidamos de nós mesmos, aprendendo a respeitar nossos limites e as necessidades: de tempo, de cuidado, de autoconhecimento. Afinal…


“Quando uma pessoa vive de verdade, todos os outros também vivem..”


Sim, é verdade: a felicidade é contagiante, assim como o mau humor. Então, escolha a primeira opção, pois, desse modo, será capaz de melhorar o relacionamento interpessoal. Porém, lembre-se de estar diante de um aprendizado diário, cujo resultado não se vê da noite para o dia. 


Anotou algumas dicas para melhorar seu estado de espírito? Então, para finalizar, quero compartilhar o segundo ponto bacana desse livro: a possibilidade de evoluir ou recomeçar a qualquer momento. Aproveite esse instante de reflexão sobre seu percurso e ouse planejar novas empreitadas. Seus projetos não precisam ser grandiosos, nem pequenos, mas do tamanho da sua alegria de estar nele. Um novo plano pode ser desde uma carreira diferente, um outro cargo, um filho ou até mesmo um aprendizado simples, mas não menos nobre: uma aula de pintura, de dança, de crochê. Permita-se qualquer coisa que te faça sentir-se feliz. Lembre-se:


“Os fundamentos do que é ‘grande', em oposição ao que é ‘apenas comum’, são conquistados no início da vida, no meio ou mais tarde… muitas vezes mediante enormes fracassos, elevações do espírito, decisões equivocadas e recomeços impetuosos.”


É isso! Não há prazo, não há idade, não há regra para recomeçar. Há apenas a necessidade do recomeço. É preciso resgatar sonhos, recolher pedaços, renascer. Não somente hoje, mas todos os dias. Então, não se coloque limites e, antes de fechar essa página, anota no seu caderninho de projetos: 


  • Onde e quando será seu próximo encontro de “comadres” para rir sem compromisso;

  • Qual será seu próximo projeto, grande ou pequeno, de alegria pessoal e cotidiana. 


Eu fico por aqui. Se você já leu “A ciranda das mulheres sábias” e retirou outras dicas não mencionadas hoje, me encontra no meu Insta para trocarmos ideias. E, se não leu, fica a dica e um último aceno: 


“A tarefa crucial (...) é a seguinte, e nada além disso: viver a vida plenamente.”




Nota: As citações em destaque foram retiradas do livro: A Ciranda das Mulheres Sábias, de Clarissa Pinkola Estés. Edição de 2007. 


Luciane Monteiro é paranaense, natural de Paranaguá. Graduada em Letras por amor à literatura, enredou-se na carreira docente, e sua avidez por compreender a mente humana a levou a iniciar uma jornada de estudos em Psicanálise. Escritora por paixão, gosta de mergulhar no universo feminino, masculino ou infantil, com o intuito de desvendar os nós de cada um, inventando novas possibilidades para cada realidade diante de seus olhos! Participou de diversas antologias e é autora de livros de literatura infantil, infantojuvenil, contos e romances, entre eles “Taça Escarlate”, “A última Tempestade”, “O Veneno Negro” e “Cordilheira e Outros Descaminhos”. Atualmente, mora no Canadá, onde faz parte do grupo Voix de Pasaj, cujo objetivo é difundir a pluralidade intercultural no Québec.


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