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O Paradoxo da Matéria Vivente e da Matéria Inerte



Por Bruno Pasquarelli


A lógica complexa do exercício e a lógica da adaptação biológica me fascinam. Mas sei que textos como esse são chatos para a humanidade acostumada cada vez mais com essa pós-modernidade, que viaja nas redes cibernéticas e tende a ficar cada vez mais sedentária, mexendo mais os dedos da mão do que as pernas.


Ainda assim, venho falar do paradoxo - alguns diriam até da "injustiça de Deus" - de fazer do corpo algo tão importante, capaz de criar a mente, com capacidades tão impressionantes e ilimitadas e, ao mesmo tempo, ser tão difícil de usar e cuidar.

Vou tentar contar de um jeito bem simples uma das lógicas que envolvem a nossa matéria vivente - nosso corpo.


Digamos que uma pessoa compra um calçado novo para iniciar um programa de exercício físico de corrida, mas logo depois de alguns dias não se engaja e interrompe os treinos.

No entanto, depois de seis meses, essa pessoa decide reiniciar o programa de corrida. A sua matéria inerte, seu tênis semi-novo, após meses ainda estará em plenas condições de desempenhar o papel tecnológico para o qual foi projetado. Ainda irá amortizar os impactos, ainda fará de forma eficiente a ventilação do seu pé e conseguirá devolver parte da força mecânica aplicada no calçado em força elástica, que ajudará na propulsão vertical e horizontal do movimento. Conseguimos concluir que a matéria inerte é melhor, portanto, quando conservada e pouco usada. Essa é a lógica, certo?


Entretanto, o corpo pouco usado, conservado em repouso durante os mesmo seis meses, responderá da maneira inversa. A não exposição do organismo a atividades intensas faz com que haja deficiência na capacidade de regular as trocas gasosas, na utilização de energia disponível (mesmo com mais energia acumulada durante os meses) e piora os mecanismos de regulação da temperatura corporal. A falta de movimento é, consequentemente, uma falta de contrações musculares, e essas são a única forma natural e realmente eficiente de anabolismo celular dos nossos músculos.

Sendo assim, a falta de movimento não permitirá uma boa absorção de impactos. E por fim, a capacidade de desempenho ficará muito comprometida pela baixa adaptação aos movimentos que exigem transformação da energia mecânica em elástica para a propulsão do corpo.


Aí está o paradoxo da matéria vivente e inerte. O corpo para ficar mais forte, precisa, por exemplo, gastar energia, quebrar fibras musculares, romper a homeostase (estado de equilíbrio), regenerar e voltar a estados melhores do que as condições iniciais. Isso o torna mais resiliente, adaptável e flexível quando vivencia situações de desempenho. E também posterga as inexoráveis consequências da idade, deixando-o menos frágil e tornando a matéria viva mais útil - e viva, propriamente dita.


Enquanto que a matéria inerte, como o tênis, vai inevitavelmente pelo caminho contrário. Quanto mais o usamos, mais frágil ele fica, menos suscetível a performance, mais vulnerável ele fica ao desmanche, ou seja, mais perto fica do fim da sua utilidade.

Sei que esse paradoxo pode parecer desencorajador, nem tudo é tão fácil quanto entrar em uma loja e comprar um tênis. Manter-se em movimento é uma solução que dá trabalho, requer prática, esforço e constância. Portanto, o movimento é mais do que algo importante, é o que regula a nossa vida. Ao contrário de um tênis, que quanto mais usamos mais gastamos, o tempo usando nosso corpo em movimento, é um tempo que volta em benefícios para nós, intensifica nossas forças físicas, intelectuais e emocionais. Não há como fugir disso, são leis da Física do nosso corpo, é a lei da síndrome geral da adaptação biológica do nosso organismo.


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